terça-feira, 4 de dezembro de 2012

domingo, 12 de junho de 2011

Observação

Não olhar perto demais
á não ser para ver distorcido
cobrir o teu banho
com a toalha que enxuga
e que vejam somente tuas pernas
nunca teus olhos
e nem tua pele
basta o movimento
que ilustra tua vontade
e que se escreva depois
sobre a visão deturpada
e necessária
afim de se manter um certo encanto.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Como será. Quem será esta pessoa que em noventa ou cem anos á partir deste exato momento, olhando pra esta mesma parede, um dia imaginará que eu, com meus olhos vivos aqui estava á pensar, e que assim como ela também tinha o coração apertado e a ilusão que se tinha muito tempo e que era infinito, que era pra sempre? Serão estas paredes as mesmas em cem anos?
Penso que o mundo é cíclico e isto um pouco me assusta. Meu avô, hoje internado em um quarto de hospital clamando por sua mãe como quando criança, um touro de coração inatingível por toda a vida criança de novo se encontra. E assim como meu avô, o avô de seu avô, e todos os avôs do mundo que antes de partirem também olharam pra alguma parede e se questionaram, e envelheceram, e por aqui não ficaram.
Se olharmos de perto, não vai fazer sentido. Não vai. Por isto mesmo é que eu quero gritar, correr, sentir o vento na cara. Experienciar o que é mais intenso. Amar. Sentir-me impotente perante este coração que insiste em mandar apesar de parecer fraco, pra que um dia mais á frente quando olhar para a mesma parede ela se torne uma tela de cinema e nela tenha minhas lembranças para projetar.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

tudo que me falta é o tempo
eu
que venero esta cidade grande
e ela me engole!
me torna escasso e
distancia, distância
á qual eu não me adapto
não me motorizo!
o tempo,
que á princípio parece infinito
é o que mais me pressiona
dentro de sua escassez
não consigo ser inteiro
faltam partes minhas
cada amigo fica com um braço
uma perna
um dedão
o meu coração
espero que todos entendam
é onipresente
carente
não tenho opção
não vivo somente de mim
tudo que está fora também me leva
e só se engana quem pensa que é dono de si!
vou continuar aqui
escrevendo estes versos cafonas
que até que arranje
meios melhores
são a tentativa
mais próxima
de me tornar mais
inteiro

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Foi quando atravessando a rua
como mariposa se atraiu á luz do
neon piscante do lugar decadente
e pensou
como o falho e inconstante
lhe chamavam mais atenção
havia um certo magnetismo
naquela luz que por falta de força piscava
com medo
percebeu que poderia
facilmente escolher o caminho mais árduo
atraído pela beleza
da tristeza
e a estética do árido
seu coração já não mais lhe
pertencia
e tudo que podia ver era sua
própria sombra
projetada na calçada suja
cada vez que aquela luz piscava




sexta-feira, 23 de abril de 2010

O método


Certa vez escutara sobre o método. Não que houvesse necessariamente um trauma. Entendia um pouco da psicologia humana, mas não achava possível entender completamente o mecanismo do funcionamento da mente, talvez a de um macaco ou a de uma anta fossem mais fáceis por serem mais simples. Na verdade a questão permanecia obscura, não conseguia ainda definir para si mesmo o que era, enfim, traição. Em períodos mais libertinos de sua existência já havia feito o papel da puta, Havia beijado vários e várias em uma só noite, só por diversão, e não que isto o levasse às vias de fato que levam á procriação, mas estava longe de ter sido um celibatário. Claro que toda a combustão era nutrida por combustíveis já utilizados há séculos, na maioria das vezes, conhecidos como desinibidores ou embelezadores, como o álcool, por exemplo. Achava até ser bem moderno, entendia o namoro á três, a libertinagem, o desapego, tudo isto enquanto teoria, o que parecia bastante interessante no caso de enjoar do arroz e feijão. Mas apesar de histórico e da teoria, só sabia de uma coisa: a cena não lhe havia feito bem. Não conseguia digerir aquilo. O método, afinal, consistia no exercício de se congelar mentalmente a cena causadora do trauma, encarar o bicho de frente, e desfrutar de uma vida sem traumas e neste caso, sem ciúmes.

Deitara no divã já há alguns minutos. Durante todo o caminho pensara em como começar a sessão, o que dizer áquela mulher, fato este que ao longo dos meses havia se tornado uma questão torturadora. Cada vez que se sentava em frente á ela ficavam se olhando por longos minutos, que pareciam horas. Nada vinha á sua mente, e a pressão que o olhar curioso da mesma exercia sobre ele o deixava congelado, o que causava ainda mais ansiedade, e nos dias em que realmente achava estar bem, acabava tendo que inventar algum perrengue fictício só pra ter papo, o que acabava se tornando real dada a dramaticidade da interpretação e da fé cênica trazida dos tempos de ator amador, cuja frustração pela falta de talento também já havia sido abordada na terapia.

Ela, a psicóloga, que não era velha mas já entrara na meia idade, usava roupas largas com motivos indígenas e estava um pouco acima do peso. Usava aqueles colares de pedras e madeira, um certo ar de intelectual tupiniquim, com óculos na ponta do nariz e um olhar de matrona. Pediu então que fechasse os olhos e se concentrasse. Trouxesse, lá do fundo da mente, a cena, a situação passada que tanto lhe aborrecia e teimava em não ir embora. De acordo com o método, a cena deveria ser revivida em preto e branco e, na hora do trauma em si, no ápice do acontecimento, pausada e observada por alguns momentos como se fosse um filme em slow motion, até que seu coração, disparado pelo trauma, suas mãos suadas e a tremedeira fossem passando naturalmente e a ansiedade diminuísse. Começou então á lembrar da noite fatídica. Na verdade, neste ponto já queria rebobinar o filme, dar stop de uma vez, e que se lascasse a pausa. Mas, como tudo que não se quer ver exerce uma atração incomensurável sobre nós, um magnetismo que vai contra a gravidade do fato em si, não conseguiu tirar os olhos da cena. Pronto, o momento da pausa! Quando os lábios se tocam! A cena até seria bonita, se ele mesmo fosse o codjuvante do tão querido protagonista. Quase romântica, caso fosse fato isolado e se abstraísse o ambiente todo em volta e as caras tortas. Observou aquilo, prestou atenção nas expressões. Era como se tudo houvesse calado e não conseguisse mais falar pela boca, fosse dar um grito pela barriga, aquela coisa parada perto do estômago e que se saísse causaria um estrago, incontrolável, demasiado humana. Suas pernas ficaram sem força. Este, pensou, deveria ser o momento em que os sinais de ansiedade deveriam começar, e em seguida melhorar, o que não sucedeu. Algo estava errado. Como num estalo, abriu os olhos. Olhou em volta e enxergou tudo mais claro dentro da sala. A terapeuta e sua habitual cara de "isto é realmente muito interessante" dos terapeutas, olhava curiosa. Sentiu uma euforia, uma aceleração. Fora de compasso, sentia como se alguém houvesse sentado no controle remoto em cima do sofá e apertado o botão de avançar com a bunda, mas que acelerava somente seu próprio personagem e mais nada em volta. Sentiu um odor forte que antes passara despercebido. Sentia agora um outro frio na barriga. Num gesto incontrolável se levantou, e de pernas moles foi até a psicóloga, segurou seu rosto com as duas mãos e lascou-lhe um beijo de língua. Um beijo nervoso. A coitada nem teve como reagir. Segurou com as duas mão os braços da poltrona onde estava sentada, apertou o couro com suas unhas e ficou com a cara vermelha, como quem tem muito ódio ou se asfixia, ou lhe fosse sugada toda a energia pela boca. O corpo pulava tentando se desvencilhar, os olhos abertos, esbugalhados.
Soltou a pobre coitada, bateu com a mão na maçaneta e saiu correndo. Desceu as escadas do prédio onde se encontrava o consultório e parecia ter o demônio no corpo. Era uma euforia irreconhecível, quase um desespero prazeroso. Uma sensação dionisíaca. Saiu correndo pelas ruas do centro antigo, a cabeça inclinada pra frente e os passos agora já firmes. Era horário de almoço e a rua estava cheia.
Quando o engraxate levantou a cabeça, achou que algo de ruim estivesse acontecendo, um assalto talvez. Manteve as mãos no sapato e com olhos assustados olhou direto ao que então achava ser a ameaça, que por sua vez não pensou duas vezes, aliás, nem pensou, dado o momento irracional: abaixou-se e lascou um beijo no engraxate, que não sabia se segurava o pé do cliente, o boné, ou se aproveitava o beijo. Largou o pé do cliente, que saiu correndo e xingando, e tentou empurrar o maluco que o havia agarrado. O beijo fora mais demorado que o da psicóloga, talvez pelo fato do predador ser homossexual, característica esta que até agora não se sabe sobre a presa. Quando o franzino engraxate já não lutava mais, deixando a dúvida inclusive se gostava ou não do ataque, soltou o rosto do jovem todo babado e saiu correndo novamente.
Correu enfim como um louco, um desvairado em busca de um beijo, uma necessidade brutal da troca de fluídos, independente de quem fosse, bonito ou feio, homem ou mulher, humano ou animal. Até um cachorro chegou a beijar, um rotweiller com cara de mau que arrastava seu dono pela coleira só pra lamber a cara e a língua do descontrolado e rosnou somente quando o seu dono finalmente foi beijado. Beijou todo mundo nos pontos de ônibus, os taxistas, os malabaristas de semáforo e os amarelinhos do trânsito. Era só um semáforo fechar e já jogava metade do corpo pra dentro dos carros e tascava selinhos e beijos de língua nos mais distraídos. Aparentemente beijava bem. Alguns até aproveitavam por um tempo mais longo que o normal, geralmente jovens senhoras que conseguiam inverter a situação e fazê-lo correr.
A ânsia era tanta que quando não encontrava alguém passava a beijar o próprio braço, as mãos, e saía correndo com a língua entre os dedos. Naquele dia não parou pra comer, incansável. Entre uma bitoquinha e outra lembrou-se do escritório, pois lá deveria estar, e só se lembrou porque minutos antes beijara uma senhora que desconfiava ser a esposa do chefe.

É verdade que em vários momentos correu pra fugir. Correu de senhoras conservadoras, que quando conseguiam se desvencilhar da rota do predador gritavam sobre os riscos das doenças carregadas pela saliva, como o sapinho, por exemplo, e pela falta de vergonha de se beijar com a língua na frente das crianças. Correu de policiais homofóbicos e de neonazistas, que primeiro beijavam e depois batiam.
Chegou enfim em frente ao prédio onde trabalhava. Olhou para o alto e respirou. Pensou, por um mísero instante de clareza de raciocínio, que não seria muito inteligente beijar seu chefe. Respirou, apertou as mãos na tentativa de auto controle, entrou no hall de entrada e deu um selinho de meia boca no zelador, que fazia vez de porteiro, e não entendendo nada continuou separando as correspondências, como já fazia há quarenta anos, entregues pelo já conhecido carteiro que também já fora beijado horas antes, e por sinal havia gostado. Entrou correndo no elevador, vazio por muita sorte, apertou o número do andar desejado e logo veio o ímpeto que o levou direto ao espelho de fundo. Beijou-se ardentemente, de olhos abertos, uma vez que somente pelo toque perceberia que aquilo não passava de um vidro. Quando a porta se abriu, segurou com o pé. Encarou sua imagem no espelho babado e não se reconheceu.

Respirou fundo. Neste dia não cumprimentou a recepcionista, como sempre fazia. Passou olhando para o lado oposto, e assim que avistou a mesinha com o café não teve dúvidas, saiu com o copo de plástico tapando a boca enquanto sua língua enlouquecida lutava pra sair e consequentemente limpava todo o copo por dentro. Sua mesa, bem ao fundo, o esperava como todo o dia fazia, um bicho de vários braços e cabeças de papel pronta para engoli-lo ao som da trilha sonora bizarra da voz do seu chefe pressionando sem dó. E foi neste exato momento que a trilha começou: como que sentindo sua presença de longe, um cachorro atrás da cadela no cio, seu chefe gritou lá dos confins da sala de reuniões chamando seu nome. O frio na espinha veio em seguida. Como falar com seu chefe quando sua língua não queria falar? Além da vergonha, certamente seria processado por assédio á um homem de sessenta e vários anos. E, também como fazia diariamente, seguiu o chamado como um cão adestrado e pra lá foi. Da porta da sala de reunião avistou a enorme barriga do seu chefe espremida contra a mesa lotada de gente. Sua língua agora estrebuchava dentro do copo. Teve vontade de chorar, de vomitar, quando percebeu o que estava em iminência de acontecer. Que pelo menos o beijasse na boca e não na barriga. Quando adentrou todos olharam. “Fsdnjndadashdu%$@*#¨¨!”, falou. “Mas o senhor pode me explicar o que...”, dizia seu chefe quando subitamente sentiu a língua estranha dentro da boca. Foi uma gargalhada geral. Apesar do ar carrancudo do chefe, a cena era muito absurda pra passar despercebida e para azar do funcionário que provavelmente teria suas horas contadas dentro da empresa. Olhou seu chefe com olhos esbugalhados. Tentava afastar seu corpo mas a boca não desgrudava. O velho até tentou mordê-lo, mas a língua estava tão rígida que era impossível. Pareciam dois cachorros grudados. Quando conseguiu tirar a língua de dentro de seu superior, já sem fôlego, não sabia se corria pra esquerda ou direita, e percebendo que não adiantariam maiores explicações, fugiu do escritório sob os aplausos dos colegas de trabalho que achavam ser aquele algum ato de rebeldia contra a empresa.

Desceu quinze andares de escada afim de evitar maiores contatos. Já estava zonzo. Tudo que queria era sua casa. Apesar da agitação que insistia em aumentar, abaixou a cabeça e seguiu pelo meio da multidão. Guiava-se pelo chão, pelas calçadas que já conhecia, pelas esquinas já conhecidas. De cabeça baixa entrou no prédio, cumprimentou o porteiro e ousou levantar a cabeça novamente pra olhar. Aproveitou o elevador que já estava no térreo. Olhou-se no espelho novamente, agora já conseguia. Colocou a chave na porta e girou. Foi recebido pelo sorriso que considerava o mais lindo, olhou aqueles olhos brilhantes e enxergou. Aproximou delicadamente seus lábios dos dele e os tocou. Pela primeira vez durante todo o dia deu um beijo.

domingo, 22 de novembro de 2009

Hoje lembrei da Paquita. Paquita era nossa cadelinha, uma pinscher de raça pura e pêlos caramelo, doce e obediente como uma pequena princesa canina. Paquita era um exemplo de cadela, com fome, ficava de pé e pulava como uma bailarina nas pontinhas das patas traseiras tentando chamar atenção, uma graça. Porque a batizamos com este nome na verdade não sei, que me lembre todas as paquitas, as da Xuxa, eram loiras, não sei se de nascença, e não havia uma sequer que tivesse cabelos castanhos ou caramelo. Aliás, nunca entendi porque chamavam paquitas e não xuxetes.
Certo dia, um alvoroço no quintal. Paquita tremia toda, como todos os pinschers o fazem, e olhava para o alto com olhos aterrorizados. Sim, quem tem cachorro sabe enxergar tudo pelos olhos do bicho. Sabemos quando estão rindo, chorando ou fazendo um cú doce. A situação parecia grave, o Rex, um outro cachorro sem raça definida que tínhamos, grande e preto, e o Lulu, assim chamado por pura falta de criatividade e que era da raça Lulu da Pomerania, também olhavam para o alto mas com um certo ar de desdém. Eram machos, Paquita era fêmea, e delicada, quase uma bailarina. Quando saio, do alto de um poste de madeira que meu avô plantara no meio do quintal e servia de suporte pras várias gaiolas de canários e sabiás que ele tinha, me olhava um urubú. O bicho era feio. Com as asas abertas e pescoço caído, olhava ameaçadoramente pra baixo ameaçando a pobrezinha, que tremia. Não que Paquita não fosse corajosa, já havia, apesar de sua delicadeza, demonstrado muita bravura, e até um pouco de bizarrice. Certa vez protegia tanto a entrada de sua casinha que decidi investigar porque tamanha movimentação. Os olhos da bichinha estavam esbugalhados, parecia que tinha cheirado, e um certo ar de culpa pairava em seu semblante. Quando cheguei perto da casa, Paquita saiu correndo e deixou o caminho livre. Peguei a casa com as duas mãos, olhei para dentro, e chacoalhei: uma cabeça de pomba saiu rolando e quase bateu na minha testa; o corpo, só Deus sabe onde foi parar. Paquita tornara-se uma assassina. Pois bem, voltando ao urubú, dada a gravidade da situação, quis proteger os meus bichos. Coloquei a Paquita dentro de casa, o Rex e o Lulu dentro do quartinho de ferramentas de meu avô, peguei a mangueira e mirei direto no bicho. A coisa preta voava de lá pra cá, caia em cima do telhado, pulava no quintal, e todo mundo gritava. Vinha correndo para o meu lado, escorregava no piso molhado e caía no chão, depois voava de volta lá pra cima do poste. O bicho me dava calafrios. Só me lembro que o bicho demorou dois dias pra ir embora, ficava a maior parte do tempo em cima do telhado e não mais no poste, sabia que já estava manjado. Tinha cara de malandro e talvez estivesse fazendo aquilo somente pra apurrinhar, uma vez que Paquita várias vezes, talvez por distração, ou por coragem assassina mesmo, saiu para o quintal e não foi devorada. Paquita, tadinha, morreu com uma pancada na cabeça, não muito tempo depois. O veterinário falou que alguém, ou ela mesma durante um ataque de fúria, teria golpeado a pobrezinha, que teve uma espécie de derrame e sangramento intra-craniano. Chorei meses seguidos, as primeiras semanas me trancafiei no quarto e chorava o dia inteiro. Mas Paquita havia deixado uma descendente, a Preta, também chamada assim por pura falta de criatividade pois a mesma era pretinha pretinha, o que na verdade era estranho, sendo filha de Paquita, cor de caramelo, e de Lulú, que era champagne ou quase branco. Rex já havia morrido de velhice, já estava lá antes mesmo de eu nascer, e Lulú morreu vários anos depois, tão velhinho que já estava até cego e com "dentes gavetinha", de quando o maxilar inferior fica protuberante e os dentinhos de baixo ficam pra fora. Perdeu toda beleza de outrora. A Preta viveu com minha mãe muito tempo e morreu dezessete (!) anos depois já no apartamento para o qual minha família havia mudado, lá no Butantã. Eu já não morava mais lá, já morava aqui no apartamento52, e achei estranho ter chorado apenas dias depois de sua morte ocorrida ao amanhecer de um dia ensolarado e tomando um solzinho que entrava pela janela como era de seu costume. Estas foram minhas primeiras experiencias com a morte.

Na verdade lembrei de Paquita por causa de um urubu. Não aquele de anos atrás, mas de um outro que conheci ontém mesmo. Atravessando uma das ruas de Higienópolis, que, apesar de não ser o meu bairro, por motivos de força maior eu adotei como meu, por pura preferência mesmo, cheguei do outro lado da rua e, ao pular pra cima da guia quase surtei, apesar de estar muuuuuuuito bem acompanhado: um urubu andava de lado, meio capenga, e olhando com ar de desconfiado vinha bem na nossa direção. A primeira coisa que me veio á cabeça era se aquilo era sinal de mau agouro, só não fiz o sinal da cruz porque não sou religioso, e estando muuuuuuito bem acompanhado daquele jeito seria até tolice achar que algo pudesse ficar ruim, porque coisa ruim é não estar muuuuuuito bem acompanhado como eu estava. Desviamos, passamos bem próximo ao bicho que permanceceu imóvel, e continuamos a subir a rua, olhando de rabo de olho pra ver se ficava pra trás, até que uma anta, no sentido figurado, empurrando um carrinho de carregador de supermercado vira a esquina de baixo e, ao ver o bicho indefeso, acelerou feito Ayrton Senna e veio empurrando o bicho até a outra esquina, onde nós estávamos, e o bicho, tadinho, desesperado, corria todo capenga. Continuaram a perseguição até o bicho sumir rua afora. E hoje, novamente muuuuuito bem acompanhado, não é que encontro o pobre coitado a vagar novamente pela calçada?! Uma madame, toda botocada, abre o vidro do carro blindado: "Pelo amoooooorrrrr de Deeeeeus, o coitadinho está toooooooodo machucado, pobrezinhoooooo!", e de repente todos em volta se solidarizaram com o bicho, que sumiu novamente, capenga.

De resto, hoje voltei pra minha casa, roupa de dois dias atrás grudada no corpo apesar dos vários banhos tomados. Motivos de força maior ás vezes nos obrigam á isto. Muuuuuito bons motivos nos obrigam á isto.

E fica aqui registrada uma de minhas várias memórias de infância.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Quase atropelado, olhei sem acreditar ainda do meio da rua. Teve a audácia de me deixar plantado no meio do caos e entrar no primeiro táxi que passava. Parei o próximo, ainda do meio da rua e entrei, nem olhei se estava vazio. O cara falava árabe comigo, não posso deixar a barba um pouco mais comprida que do usual “italiano”, “frances” e “portugues” logo viro árabe. Eu suava frio, só que de nervoso, ainda era inverno e a temperatura estava em torno dos oito graus positivos apesar de estar no Cairo. De súbito, o táxi pára. Entra um homem alto e bem moreno no banco da frente, feio, devo mencionar, cumprimenta o motorista, bate a porta e logo já começa a me pedir dinheiro, primeiramente num francês, e em seguida em um inglês mais do que toscos. Comecei a berrar com os dois, fiquei macho, disse que queria descer do táxi imediatamente, apesar do frio na barriga e do choro preso de nervoso. Tinha a certeza que deveríamos virar á direita, mas é claro que fomos pra esquerda. Continuei no táxi ainda por uns dez minutos, não acreditava que além de levar um pé na bunda ainda haviam me sequestrado, e além de tudo eram feios. Quando finalmente caiu a ficha e percebi que não iriam parar, fingi que iria abrir a porta e pular. Ele parou o carro, esperou que eu saísse e foi embora. Já fechei os olhos esperando o tiro. Meu coração saía da boca, respirei, olhei em volta, deserto. Deserto de gente, e deserto de deserto mesmo, areia. Vi um portão alguns metros á frente e segui pra lá. E não é que ele havia me deixado lá mesmo, de frente á esfinge que me observava toda lânguida e sem nariz?!

Outra memória de viagem.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009


Com a bochecha direita encostada no balcão do bar, sentia meu corpo inteiro formigando. Horas antes, andando pela cidade com um grupo de espanhóis, entrei no Banco do Brasil pra acompanhar uma conhecida brasileira a tirar dinheiro. Lá dentro, uma figura vestida com saia e blusa indianas, coloridas, cabelo todo encaracolado e avermelhado conversava, alucinadamente, com a caixa do banco vazio, reclamava que sentia saudades do Brasil e dos brasileiros, que não aguentava mais e precisava falar português de qualquer maneira. Olhou pro meu lado, e como tenho imã pra gente doida lá veio ela com seu sotaque nortista, acolhedor, desanuviando os ouvidos da pobre caixa-terapeuta-brasileira-que-mora-em-Amsterda. Deu graças á Deus de ver um brasileiro. Comecei a conversar, ela era interessante e tinha presença de espírito, era bem engraçada. Saímos juntos do banco, nos juntamos ao grupo de espanhóis novamente e fomos andar. Não muito tempo depois, já éramos unha e carne! Por idéia dela, demos um perdido no grupo e sentamos em um bar todo decorado com motivos psicodélicos, todos lá sentados em círculo, no chão, olhando uns para os outros, chapados. Avisei que nunca tinha fumado a mardita. Peguei o cardápio e escolhi a jamaicana, tinha jeito de ser boa e me lembrava praia. Começamos á conversar sobre o Brasil, sobre as praias maravilhosas em contraste daquele dia frio, do seu marido paraguaio que era artista plástico, dos seus dois filhos e seus nomes excêntricos, e eu ria, ria, e dizia estar frustrado porque nada estava acontecendo e que aquele treco não dava barato, uma enganação. Saíndo de lá, andava pelas ruas e até o asfalto eu achava bonito.
Na porta do hostel lá estava ele, um quase príncipe encantado filho de mãe austríaca e pai italiano, todo bem vestido, tudo sob medida, cabelos castanhos claros e pele da cor de jambo, que aliás eu sempre uso como exemplo e nunca ninguém entende que pele é. Pois bem, resolvi puxar um papo, afinal ele já havia me abordado uns dias antes. Me convidou pra jantar ali perto, então lá fui eu, tomei um banho, puxei umas roupinhas "mais ou menos" da mala e dez minutos depois estávamos á caminho do restaurante. Conversamos sobre tudo: família, artes, cinema. Menos de sexo. Incrível ele, mas não se dizia gay. Voltamos pro lobby do hostel, encontrei uns alemães animadíssimos que já há alguns dias faziam uma bagunça divertida no local. Claro que naquela época eu achava engraçado, com vinte anos tudo é engraçaado, e resolvi me juntar á tchurma. Não me lembro muito, só sei que dei umas tragadas numa tora de uns trinta centímetros que ía passando de mão em mão e soltava uma fumaça que empestiou todo o saguão. Ria, ria, ria. O rapaz todo perfeito só observava. Levantei, chamei ele pra fora, falei que estava tonto e comecei a chorar, falei que achava que iria morrer, mas que este não era o problema, pois o pior era como iriam levar meu corpo para o Brasil. Ele me levou pra dentro, me sentou ao lado do balcão do bar e continuou observando. Minha bochecha formigava só de encostar no balcão, estava zonzo mas não parava de pensar como seria o transporte do esquife. Pedi pra deitar no sofá. Ele colocou minha cabeça na sua perna e me fez dormir. Meu vôo de volta ao Brasil seria em algumas horas. Lembro de adormecer olhando pra aquela carinha perfeita alisando minha cabeça. Acordei de madrugada, já na minha cama, e com tempo suficiente para ir ao aeroporto. Vim sentado no banco do meio de três, classe econômica de lá até aqui, um árabe de cada lado e um monte de tranqueiras que trouxe embaixo do banco da frente sem nem poder esticar os pés. Da bicho grilo não escutei mais, havia anotado seu contato mas nunca liguei. Do meu companheiro de farra nem contato eu peguei, mas sempre me vem esta história vez ou outra á cabeça. Sempre me pergunto se estas pessoas algum dia lembram de mim assim como lembro delas. Será?

Primeiro dia de pequenas memórias de viagens...

Aqui no apartamento52, tentativa de concentração enquanto uma travas que escutavam Sarah Brightman com as portas do carro abertas (ninguém merece) agora resolveram tocar Carmina Burana no último volume. Oh, Deus...

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Voltando pelas ruas de Higienópolis, olho pra cidade que de madrugada me parece outra. Olho, com olhos de turista, e olho pro alto. Há algo de diferente no ar, sinto uma inesperada golfada de ares novos e refrescantes. Hoje mudei minha cama de lugar, cabeça pra janela e pés pra porta do quarto, e assim algo se faz novo e o feng shui que me perdoe. Talvez seja a cera da faxina de hoje dando barato...

Um fato. Considero um talento não ser ignorante e mesmo assim ser feliz. Como se diz ás vezes a ignorância é uma benção. Cada vez mais, uma seleção talvez natural me aproxima destas raridades de pessoas que por algum motivo tornam meus dias melhores. E não é que com meus trinta e três anos me pego ás três e meia da madrugada de uma Quarta pra Quinta em sonhos mirabolantes de mudança? Justo eu, que apesar de boa pessoa sou um pouco garoto enxaqueca?

Hoje andei pensando. Quero um cachorro, quero morar no Canadá, quero que seja fácil. Quero gente bonita, quero gente interessante, quero gente inteligente. Quero mais tempo. Eu quero.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

"Eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim" e daí por diante, com a Gabriela, comigo, e com todo mundo. Ainda bem. Hoje mais do que nunca penso que não quero mudar ninguém, não quero ser um fator limitador. Se gosto, gosto. Do jeito que é.
Eu não posso dar o que eu não tenho, e algumas coisas que tenho, não quero dar, e daí a piadinha na cabeça do sem vergonha que está lendo...
Eu durmo tarde, querem que eu durma cedo;eu acordo tarde, seria melhor mais cedo. Se eu fico é porque sou grudento, se sumo é porque sou birrento. What the fuck?!

Eu nasci ás nove e meia da manhã de um Domingo, praticamente um after. Não tem jeito, I´m not a "morning person" e acordo com cara de emburrado mesmo. Mas pra que focar na minha cara de joelho, sendo que o resto do dia estou acordado e inteiro? Trabalho rápido, como rápido, ando rápido, malho rápido, tudo rápido, e mesmo assim não é o suficiente, eu "não priorizo" as coisas certas...

Parece que meu sexo "está insosso", que tenho que mudar. Do mesmo, não se quer mais, tenho que fazer mais. Nenhum problema com a genitália, longe de mim, mas a vida é assim e comer arroz com feijão todo dia pra alguns enjoa. Não pra mim, mas sendo assim, tenho que fazer do arroz um strogonoff e do feijão, bom...do feijão não se tem muito o que fazer. Mas chega uma hora que strogonoff também cansa.

A vida é assim, enfim, e se nasci torto provavelmente esse será meu fim.

domingo, 4 de outubro de 2009

Há algum tempo não escrevo. Não por falta de assunto, pois por mais que sejam os mesmos sempre os tenho. Tempo, a falta de tempo. Não que não o tenha, pois são várias as vezes que aqui me sento e fico á olhar para a tela, inerte. Ás vezes, tenho a impressão que ou escrevo, ou vivo. Se vivo, não tenho tempo de escrever, tantas as informações, experiências, que transbordam de mim e quero contar, e se somente escrevo não vivo. Escrever me faz vivo, mas ás vezes só viver é mais fácil. Ou empurrar com a barriga, ir com o fluxo, pra ser mais claro, e não que a vida seja um mar de rosas.

De nostalgia também se vive, eis minha surpresa. Hoje fui à uma reunião da família, com primos que não via desde os treze anos, tias-avós adolescentes de oitenta anos, noras que parecem sogras (!), e muito churrasco, massas, saladas e doces dos quais nem percebi que já sentia falta. Rostos que se mantém iguais, corpos duas vezes maiores, e alguns nem tanto. Todo mundo com filhos, e alguns filhos também já tem filhos! O que este povo andou fazendo enquanto eu estava fora?

No carro já me prepararam: "Se prepare que o tio Vadão vai chorar...", e assim se sucedeu. De início não me reconheceu, mas chorou do mesmo jeito, assim como fez com cada um dos outros familiares que chegaram antes de mim e em todos os anos que já se passaram. Fui o último a chegar á escola, pertencente á um dos parentes e local do encontro. Fui cumprimentando um a um. Gente que havia esquecido e num instante se tornou tão familiar e presente de novo. Que vida maluca, não me lembrava que tinha primos tão engraçados!

Na porta, uma foto de minha bisavó e uma criança no colo que uns diziam ser minha mãe, outros sua irmã mais velha que daqui se foi quando tinha quatro anos, morreu no colo de minha avó, foto ampliada em preto e branco e de meados do século passado. Sim, a história da geração lá presente já virou de um século pro outro, é engraçado pensar sobre isto. Na foto, minha bisavó, Antonieta e a criança, ambas sentadas no quintal de um terreno enorme que tinham no Butantã, bairro onde eu nasci e fui criado, cada uma com uma mecha de cabelos brancos enorme na parte da frente da cabeça, mecha esta que também tenho, em tamanho menor e que virou a marca registrada da família. Diz a lenda que, durante a gestação de uma de suas filhas, no caso minha avó, a senhora Antonieta acidentalmente deixou cair um litro de leite fervendo, e de mãos molhadas, após o susto e talvez com dor, as colocou na cabeça, indignada com o que havia acontecido, e depois as apoiou nas pernas, mesmos locais onde apareceriam manchas brancas nela e em seus descendentes desde então, isto á partir de minha avó, sendo que as das pernas eu não tenho. Só a mecha branca de cabelos já me causou problemas o suficiente, já fui chamado de Odete Roitman, Cruela e de guaxinim, um trauma. Hoje pego um cotonete e passo uma gota de tinta e água oxigenada, e já é suficiente pra apagar a causa do trauma. Mas bem que achei bem bonitas as que hoje vi na cabeça de outras pessoas.

Uma tia, que aliás tem uma nora que é sua cara e cujo fenômeno constatei ocorrer mais de uma vez na família, notou terem faltado algumas pessoas ao encontro. Meu primo, filho dela e que tem a noiva com a cara da mãe, respondeu que só se as mesmas levantassem da cova, o que causou o silêncio de uns e a gargalhada de outros. Daí, durante toda a tarde se passou o que óbviamente se espera das reuniões de família: os tios bêbados, as piadas sem graça mas que no final todos riem sinceramente, privacidades expostas, o dono da churrasqueira trazendo petiscos vez ou outra, as histórias de viagens e os doces sendo divididos entre todos na hora de ir embora. Telefones e emails trocados, e a promessa de se fazer tudo isto com mais frequência, o que já se sabe que não acontece mas que deixa uma sensação gostosa de continuidade.

É interessante a perspectiva de que se faz parte de um grupo de mesmo sangue. Ali se tem uma posição muito bem definida. É uma ordem já estabelecida, papéis estabelecidos, é o que é. Eu sou o primo de alguém, que é filho de alguém, que é irmão de alguém, que por ventura é minha mãe, ou meu pai. Isto parece que dá uma certa segurança, uma sensação de que as coisas estão caminhando sim, de que existe um caminho sim, e que a gente faz parte dele sim. Que vieram uns lá atrás e já se foram, que virão outros mais á frente, and so on.

Definitivamente preciso fazer mais do que muitas vezes considero programa de índio.



segunda-feira, 31 de agosto de 2009


Provavelmente em busca de novas experiências, meus dois vidros de florais de Bach também foram bebidos no ultimo Sábado. Como se não bastassem as aproximadamente quinze garrafas de lambrusco tomadas e as várias de vinho branco, além da tradicional vodka com energético dos nossos “esquentas”, descobriram meus dois vidrinhos ao lado da máquina de lavar louça inativa ao lado da janela da cozinha e colocaram no lambrusco. Não sei porque, mas deu barato. Percebi a avalanche de pessoas bêbadas invadindo minha cozinha logo depois do bolo destroçado pelo Emílio,já bêbado, que fazia aniversário neste dia, e em vez de cortar o primeiro pedaço e fazer um pedido praticamente esquartejou o bolo. Acho que ficou nervoso pelas cenas calientes protagonizadas por vários bonequinhos de plástico que eu comprei no mercado e usei para decorar o bolo, afinal era aniversário de menino, não de menina. Perdi a vela, devo ter jogado no lixo junto com as sacolas de mercado que geralmente evito, pois sou ecologicamente quase correto, no que diz respeito a sacolinhas de mercado pelo menos, peguei uma vela de Natal da largura de uma de sete dias acendi. Alguém virou lambrusco do lado do meu DVD, o que prontamente limpei usando um pano de prato velho e papel toalha, mas como já estava bêbado precisei de ajuda. Desconfio que teve gente que bebeu Listerine, pois só achei metade da vasilha de um litro e meio ainda restante. Não sei se deu barato, mas que chegaram com um hálito incrível na The Week eu tenho certeza.

Meu amigo Décio foi o bofão da noite. O Emílio, já bêbado, quebrou meu saca-rolhas e daí só um homem de um “metro-e-noventa-e-muitos” pra abrir as garrafas remanescentes á força usando uma faca. O Al….ai o Al…aiaiai o Al….passou lá em casa antes da galera e foi uma delícia, um dos pontos altos da noite. Gostei também de ver o outro Alex, neste caso o dragão,e o Ton, que nunca tinham vindo ao apartamento52 mas eu jurava que sim.

Tiramos várias fotos. Domingo, eu e Emílio, que me visitava pra buscar seus presentes, começamos a vê-las uma à uma, ainda na câmera. Diego, que fazia poses em todas elas roubou a cena e todas eram engraçadíssimas, apesar de ter cismado com meu quadro preferido que segundo ele dava “sono”. Passando meio que rápido por todas elas, tivemos uma surpresa logo depois da foto de uma amiga bem bonita, não “ajeitadinha” e nem “exótica”, bonita mesmo. A próxima, tirada de dentro do meu banheiro, e com a própria câmera do Emílio, mostrava um…órgão reprodutor masculino, mais conhecido como pênis, ou pinto mesmo. Pois é. Ficamos uns três segundos chocados sem entender muito bem o que era aquilo, depois virei o rosto numa crise de riso e ao mesmo tempo sem graça, achando que eu havia acessado algum álbum de fotinhos proibidas do meu amigo, aquelas que todo mundo já tirou um dia pra se auto-analizar e esqueceu na câmera. Não foi o caso, realmente não eram dele, pelo menos ele disse, e estavam bem no meio das fotos da bagunça. Desconfiamos de uma certa pessoa que, se não estou enganado, falava alguma coisa sobre “pinto” e “banheiro”. Eram três fotos, mesmo ângulo, estados diferentes. Não vou explicar.

Todos para a The Week, que estava fantástica, as pessoas também. O som estava incrível. Pra mim não cola mais aquela balela de que em semana anterior á festa famosa não vale a pena sair. Acho que o que rola é o oposto, pois nas tais festas não se consegue nem andar trinta centímetros na pista e muito menos dançar. E vamos combinar que ninguém agüenta uma noite inteira dentro de vip. Nos divertimos horrores e quando me chamaram pra ir embora já eram sete da manhã. Eu nem percebi.

Acabei de assistir á entrevista da Anna WIntour no David Letterman. Um E.T.

De resto, vou trabalhar todos os dias somente á tarde esta semana. Vou dormir pra cacete.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

The Turning Point


The turning point. Devo ter chegado ao ponto. Sabe aquela sensação de que se chegou ao topo e agora começa o declínio, e aquela piadinha sem graça de que se está com problema de junta começa á fazer sentido?
Desde Sexta-Feira estou só o pó. Trabalhei horas a mais todos os dias da semana passada. Fui pra academia a noite e simplesmente não tinha energia, não havia sobrado nada. Cheguei aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo, não da vida pois acho que ainda rola uma prorrogação, mas da academia, ou seja, nem os professores estavam com uma cara muito boa. E Ana Carolina não ajuda muito se você é um dos únicos a malhar numa academia deserta numa Sexta á noite e ainda deu mal jeito na lombar. Me arrastei pra um queijos e vinhos na casa de uns amigos, dei risada, voltei pra casa cambaleando e travado. Acordei Sábado e nem conseguia levantar da cama. A genética é realmente engraçada. Todo ano no inverno vejo meu pai na mesma situação. Acho que chegou minha vez...

Tenho medo da natureza. Nem sempre foi assim, já participei de caminhadas na Serra do Mar, tomei banho de cachoeira. Mas hoje, a mata fechada e seus bichos me dão calafrio. Pra mim, natureza é caos, e quanto mais se distancia dela, menos bem vindos somos á esta atmosfera caótica. Aquele crescimento desordenado, a lei do mais forte sobre o mais fraco, tudo isto me deixa tonto. Em algum momento nos distanciamos disto, o que eu acho bom. Acredito que fazemos parte deste caos também, ele está dentro de nós inclusive, e existe uma linha muito tênue entre o equilíbrio a nossa total desordem, nosso estado mais primário, grotesco. Já tive a impressão de que nossa meta deveria ser uma aproximação maior com ela, a Natureza, e que nossa infelicidade estaria em tentar ordenar o que não é “ordenável”. Hoje me questiono. Isto nos daria paz intelectual pois o instinto reinaria, porém poucos de nós sobreviveriam, aposto. Eu mesmo, neste turning point seria devorado por algum bicho mais fortinho fácil fácil.
Por isto é que tiro mais uma vez o chapéu pro Lars Von Trier. Sábado fui á pré-estréia do “AntiChristo” com dois melhores amigos, Cícera e Emilio, e tentei arrastar o terceiro, Danilo, dizendo que havia comprado os ingressos pra assistirmos a pré-estréia de um drama chamado “Christo”, o que não colou pois ele só apareceu no fim da sessão e ficou me esperando do lado de fora, ou seja, tive de devolver o ingresso. Ele odeia filmes de terror. Em uma ocasião praticamente o obriguei a assistir um suspense em casa, foi uma cena só. Ele grita, esperneia, dá “pitti”. No filme, um casal, uma escritora e um psicanalista, perdem o filho. Em uma espécie de tratamento de choque, o marido tenta salvar sua esposa e a leva a enfrentar seus medos mais primários, cara a cara, durante uma estadia forçada no “Éden”, o sítio onde fica a casa da família no meio de uma floresta inóspita onde só se chega depois de uma longa caminhada, e não pense que estou estragando o filme pois isto consta na sinopse e é só o começo da desgraça toda. Assim como em Dogville e em Manderlay, nos quais pouco a pouco nosso lado mais “humano” vai se mostrando e impera a lei do mais forte, seja esta força física ou não, no Éden, no meio daquele mato todo, não poderia ser diferente. O diretor conseguiu exemplificar o que sempre achei da natureza, a com N maiúsculo e chamada de mãe, e a nossa natureza mesmo, e com um toque de sadismo que acho que faz parte das duas. A experiencia foi punk, até mesmo porque eu já estava um pouco zonzo do falatório da peça que tinha acabado de ver, que se passava dentro de um bar e ninguém parava de falar, A Falecida Vapt-Vupt, do Antunes Filho. Terminamos a noite na Lanchonete da Cidade contando histórias de terror e de sonhos esquisitos. A Cícera foi lá pra casa e conversamos primeiro na cozinha, comendo pão doce, e depois na cama, mas sem sexo.

Travado, passei o Domingo no sofá. Olhava pra fora da minha janela grande da sala e via aquela garoa ininterrupta, própria pra um filminho e comidinhas. Comecei a tarde com dois sanduíches com mortadela, peito de perú e queijo cheddar, tudo misturado, uma bomba. Assisti Milk, que não esperava ser muito bom mas fiquei surpreso. Chorei. Tive vontade de ser militante, mudar tudo, até que fiquei com fome de novo e esqueci tudo. Comi mais dois sanduíches. Mais gordo e ainda carente, deu uma saudade do Al....ai o Al....aiaiai o Al....então passei torpedinhos e dormi. Sem resposta, depois de um tempo liguei. Ele foi lá em casa, assistimos um pouco de televisão, juntos. Eu não queria mais nada. Mas durou pouco, e eu insisti acompanhá-los pra casa pra ficarmos juntos mais um pouco. Passei um frio danado, mas valeu. Subimos e conversamos mais uma meia hora á meia luz.

De resto, vou tentando dar um jeito na minha vida. E já que não fiz nada no fim de semana e fiquei quebrado do mesmo jeito, o próximo que me aguarde.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Talvez meu estado mais equilibrado seja um zero total, uma falta do que fazer. Sem graça, insosso, porque no fundo no fundo meus melhores pequenos prazeres são sempre pequenos vícios, e aparentemente é assim que eu gosto mais. Comecei um novo esta madrugada quando li uma matéria sobre sites preferidos de uns outros blogueiros, famosos aliás, bem talentosos. Um deles falava do 99Blocks, um joguinho filho da mãe onde se tenta empilhar os noventa e nove blocos disformes com o intuito de construir a maior torre possível e bater os recordes online. Claro que passei as próximas duas horas tentando, enquanto conversava sobre a vida, instituições falidas, Gustav Klimt e manicures de Nova Iorque com meu amigo Flavio.

Me sinto bem na madrugada. Mesmo com o sono batendo, ou melhor, o cansaço, pois o sono some, fico elétrico e pau pra toda obra depois da meia-noite, mas não bebo sangue e nem durmo em caixão. O apartamento52 parece mais aconchegante, o mundo parece só meu. Ontém, até uma e meia da madrugada minha casa estava cheia. Mãe, sobrinha, irmão, vizinha e filha da vizinha, que da última vez que vi era bebê e quase matou todo mundo do coração engasgada. Minha sobrinha insistindo pra comer pipoca, me pedindo pra não falar pra ninguém, era só pra ela. Tudo bem, eu estava com medo de servir a filha da vizinha, de qualquer maneira. É de madrugada que mais me dá fome também, e quando bate o desespero vale o que tiver na geladeira, em qualquer combinação possível. O Flavio ontem comentava que estava comendo pudim durante o chat, eu tive de me virar com leite Ninho e Nescau, misturadinho com um pingo de leite integral pra virar uma papinha. Fui dormir ás cinco da manhã e já tinha comido, além da papinha, pão com peito de peru, vários copos de leite e salsicha.

Faz meses, na verdade mais de um ano, logo após a saída do Al...ai o Al...aiaiai o Al....como eu gosto do Al... do hospital, depois do acidente de moto, que comecei a me sentir estranho. Tenho uma sensação constante de tontura, não consigo focar o olhar muito bem, e uma pressão esquisitíssima na cabeça. Pra falar a verdade já achei que estava batendo as botas, mas como já se passou um bom tempo, não acho que seja a curto prazo, afinal, todos os meus exames dão sempre ok, ou seja, "tecnicamente" não tenho nada e se tudo der certo só a longo prazo mesmo é que eu desligo. Mas, estou um pouco(!) irritado com tudo isto. Não que eu queira achar algo de errado, mas acho impossível nenhum médico achar nada por outro lado. Já me disseram que é ansiedade...sou ansioso, mas conheço gente muuuuito mais ansiosa do que eu. Bom, vou levando, e já estou pensando em consultar curandeiro e pai-de-santo. Não podia deixar de comentar pois escrevo agora bem tonto, aliás. Gente burra também me dá tontura, e tenho lidado com várias, mas esta tontura esta além do normal.

Hoje li num blog gongo pra fashionistas descompensados (adooooro!) que tem uma modinha "peitinhos de fora" rolando nas buatchs descoladas da moda. Tinha inclusive umas fotos com uns peitchos no mínimo estranhos saindo das camisetas regatas. Me questiono porque os mesmo fashionistas, que aliás conheço vários e adooooro(!), sempre questionam as Barbies que tiram a camisa na noite, sendo que eles próprios já começam a mostrar seus corpos desnudos? Pura dor de cotovelo, tá comprovado. Rarará! Lembrei aliás que meu amigo Lucas perdeu a camisa na The Week no último Sábado, achei engraçadíssimo. Dêem uma olhada no www.tinyurl.com/hcafona que as fotos valem a pena.

De resto, tô tentando dar um jeito na minha vida.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Olhei pro celular em cima do travesseiro ao meu lado. Quase um namorado, não fosse a foto da minha chefe mostrando a língua, tirada quase um ano atrás pro contato da minha agenda, piscando desesperadamente e aquele alarme maldito que quase me matou do coração. Tem muita gente que iria gostar, tem todo um papo que deve ser o máximo morrer dormindo, mas no meu caso, não quero morrer, nem dormindo, muito menos acordando, e nem assustado com o celular numa Segunda de manhã. Eu nasci num Domingo, não quero morrer em dia de semana. Aliás, como disse, não quero morrer, at all. Dormi com o mp3 ligado escutando Robyn, recomendo muito, e por isto o som alto. Sem maldade, mas o sono estava tão pesado que quando olhei pra minha chefe primeiro não entendi, fiquei uns cinco segundos olhando. Minha chefe, língua de fora, minha casa, eu de pijama, não, as coisas não estavam se encaixando, quase o The Twilight Zone. Resumo da ópera, tomei banho em cinco minutos e em dez estava no escritório. Emergências da aviação. Aliás, falando em aviação, um passageiro hoje me perguntou hoje qual garantia eu dava de que o cinto de segurança á bordo não machucaria a barriga da sua mulher em caso de turbulência(?). Não sei o tamanho da barriga, me limitei a responder que o cinto deve ficar um pouco mais abaixo da mesma, ali mesmo onde geralmente as pessoas usam cintos, com exceção do Faustão, daí o nome, e cá entre nós, garantia não se tem nem de que vai acordar, idéia que eu já disse algumas pessoas adoram.

Ontém comi bolinhos de arroz no Ritz. Minha amiga voltou de viagem e tinha muito o que contar de Paris, Lyon, Egito, e dei graças á Deus, se é que ele existe, por ela estar de volta sã e salva e não picadinha dentro de uma mala. Sempre que alguém some e não dá sinal de vida vem umas bizarrices na cabeça, mas eu sei que ela sempre se sai bem.

Jurava que durante o fim de semana levaria uma vidinha calma. Fantasiei a semana inteira eu sentado no sofá, o céu cinza, edredon, pipoca e chocolate quente em vários turnos. O Al...ah o Al...aiaiai o Al...sentado ao meu lado, aliás, enrolado ao meu lado e um filme bem denso passando. Não consegui. Quando vi já estava saindo do banho no Sábado á noite e meus amigos preparando os drinks na sala, um amigo do teatro que é de São Leopoldo e tem vinte e dois anos sendo levado pro lado negro da força e arrastado pra The Week. Tentei embebedá-lo, acho que ele se divertiria um pouco mais, mas ele é mais controlado que eu. Tomei os meus em copos gigantes da Coca, coisa fina, fiquei bem alegre, rimos bastante. De qualquer maneira deve ter aproveitado bem a noite pois o som estava ótimo.

Quanto mais penso, mais me deprimo. É sério. Acabei de assistir A Questão Humana, depois de umas sete tentativas frustradas. O filme é incrível, de início causa um certo estranhamento, pois é totalmente sensorial, daí meu sono constante nas primeiras tentativas, se é que sete podem ser consideradas "primeiras" tentativas. Um executivo é solicitado á acompanhar o dia-a-dia de um de seus superiores, investigar o porque de suas atitudes "estranhas" nos últimos tempos. Não vou contar o filme, é claro, pois tenho uns dois amigos que adoram fazer isto e tenho vontade de picá-los e colocá-los dentro de uma mala. Mas posso falar que o filme mostra o processo do qual fazemos parte, triste, este contexto histórico que não sei quando começou, talvez com a industrialização, onde começamos á falar uma outra língua que não a nossa, a língua que se fala na empresa, no marketing, que se sobrepõe á nós e nos torna nada mais do que produtos dentro de uma grande "coisa" organizada, não-orgânica, fria, morta e definida, absoluta por definição. Nos extras do DVD a roteirista e o diretor falam tudo isto. Não é a língua dos poemas, dos sofrimentos de amor, dos sonhos, do caos perfeito que somos, e nos faz lembrar de quantas vidas já sofreram isto em um grau mais extremo, quantos já foram sacrificados, enquanto produtos que eram considerados, na tentativa de um tal aperfeiçoamento em que já se acreditou e cada vez se acredita mais. Bom, chorei. Mesmo, de uma maneira muito sentida. Recomendo, porque não acho que é só de oba-oba que se vive, há de se rir e chorar, se questionar e compartilhar, e é bom rir com a consciência de que estamos rindo por sermos inteligentes e privilegiados e podemos tirar sarro de nós mesmos e com gosto. É muito mais saboroso.







sexta-feira, 17 de julho de 2009


Atacaram bolinhas de gude nos travestis. Pois é. Algum vizinho “simpático” fez a política da boa vizinhança, abriu a janela, e tome bolinhas de gude. Claro que as travas se revoltaram. Sim, tem travesti na minha esquina, e não, eles não mexem com ninguém, muito pelo contrário. De vez em quando escuto o papo lá da rua, coisa bem fina, principalmente quando “elas” estão brigando ou alguém não quis pagar. Claro que não sou amigo íntimo de nenhum(a), nunca nem conversei, não por preconceito, simplesmente porque não vem ao caso, mas também não preciso sair brincando de paintball com eles(as). O fato é que tenho alguns vizinhos bem“fofos”, gente boa mesmo. Meu prédio é de gente distinta, mesmo. Senhorinhas com colares de pérolas e coque muito bem feitos, de mãozinhas dadas com seus velhinhos muito bem vestidos, educadíssimos, e coisa e tal. Tem uma galera mais jovem que é descolada, mas sempre tem aquela figura “super” querida de todos... que pelo jeito joga bolinhas nas travestis. Em protesto, vieram até o porteiro e ameaçaram quebrar as duas portas de vidro do prédio e o espelho gigante do hall de entrada. Agora por causa do mala-vizinho corro o risco de correr de travesti, apesar de elas falarem que me acham gostoso quando eu passo(!). já recebi algumas propostas indecentes. Só sei que a presença delas não me incomoda e acho até engraçado, são divertidas. O melhor de morar aqui é subir três quarteirões e passear pela Higienópolis, ou se for pro outro lado tomar uma cerveja na Roosevelt. Gosto de estar no meio das duas coisas, mesmo. Nem tanto na bolha nem tanto na boca. Meu vizinho é que deveria mudar-se pra uma chácara com milhares de metros quadrados e uma casa bem no meio cercado de nada. Algo do tipo “A Morte do Demônio”, aquele clássico do trash dirigido pelo Sam Raimi e que é tudo de bom, mas mala que é mala vai pentelhar até os bichinhos. Um dia ele vem até a área de serviço e diz que alguma coisa está “vibrando” no apartamento52 (?!). Pois não é que no outro recebo a visita da minha avó e o mala-vizinho soca a minha parede por estarmos conversando?! Minha avó é filha de italianos, tudo bem, mas não fica dançando a tarantela no meu quarto. Mal escuto sua voz quando conversamos. Um dia, quando eu voltar a fazer sexo, que pelo que lembre faz barulho, terá que ser com a mão na boca em vez de lugar melhor só pra não importunar a criatura.

Acabei de chegar do Ceagesp. Estava tomando um café no Suplicy agora á noite quando recebi o chamado da minha mãe em mais uma febre de compras. Ela adora comprar coisinhas. Bem oportuno, eu também quero comprar uma árvore pra colocar na varanda integrada do apartamento52 depois da faxineira ter decepado meu bamboo, que eu tanto amava. Achei uma pitangueira linda, e um pé de ameixas também, mas achei melhor pesquisar se eles se adaptam á varandas, o que eu acho que não. Voltei de mãos vazias, mas em compensação comi um cural de milho verde divino.

De resto, estou há duas horas navegando pela onipotente e onipresente internet. Cheguei hoje á conclusão de que ela sim é poderosa, está em todos os lugares e ligada á tudo e á todos ao mesmo tempo.Um bicho tão grande que no final a gente quer mamar o tempo todo pra tentar não perder nada, ter tudo ao mesmo tempo, que nem ela. Falar com todos, ter todos, saber de tudo. Será mesmo que eu quero? E eu achando que com meus prolongamentos todos do post anterior estava virando uma super-hiper-máquina. Pretensão. Acho que ando lendo muito Baudrillard...

quarta-feira, 15 de julho de 2009


Eu realmente me supero. Quinze minutos atrasado hoje de manhã, entrei pela porta dos fundos pra não chocar, pelo menos não hoje no aniversário da empresa. A culpa não foi minha, sei que não estou em condições de arrumar desculpas, e juro que meu relógio tinha um maldito pontinho vermelho e mesmo assim não despertou. Lei de Murph. Passei a madrugada brincando de baixar widgets pro meu desktop. Até que deu pau no sistema e passei a outra metade da madrugada tentando consertar os problemas. Não contente, dormi durante meu horário de almoço. Perdi a hora de novo, e que minha chefe não me escute, ou melhor, me leia.

Computador é brinquedo de gente grande. É como brincar de Lego, a gente anexa arquivo dentro de arquivo, copia, cola, desfaz tudo. A gente adora trocar papel de parede, o skin do music player, reorganizar os ícones da área de trabalho, pois dependendo do humor a Lixeira fica melhor em cima do Explorer que fica mais legal do lado direito superior da tela, ou não. Adoro abrir pastas e subpastas, por exemplo, divididas por cantor, álbum, gênero, cor da capa, álbum família, férias, trabalho, festa da sobrinha, boate, ensaios fotográficos, e depois inverte tudo. Brincadeira mais legal só da web. Considero meu PC o pão e a web a salsicha, numa comparação nada á ver. A gente conversa, manda arquivo, baixa foto, música, filme, enfeita o PC, escreve blog e tem até perfil virtual. Geralmente quem é gordo vira magro, quem é magro vira atlético, o feio fica bonito, morena vira loira e homem vira mulher, e também vice-versa. De vez em quando a gente vê sacanagem também. É quase como entrar na maioridade e ganhar um carro esportivo ou virar astronauta, tudo junto. Eu brincava de cabana e hoje brinco de PC.

Certa vez me lembro de ter machucado o nariz. Usava óculos desde pequeno e hoje não preciso mais. Aquela armação maldita pesava mais do que devia, era azul e tinha a cara do Pato Donald grudada nas laterais. Eu ficava revoltado de ter que usá-lo, não pelo Pato Donald, mas não considerava aquilo como parte do meu corpo, me importunava, além da vergonha que passava na escola, claro. Até que ele parou de me machucar. Até comecei a gostar dele, incorporei total o visual e me sentia pelado sem óculos. Me questiono até que ponto eu sou eu, quais são meus limites? Nasci com cabeça, tronco e membros, graças. Mas ao longo do tempo fui acoplando, as fraldas, as roupas, os óculos, a obituração do dente de leite, que aliás também saiu e deu lugar pra um novo, a mochila pra levar peso e muitos e muitos dados do meu CPU, HD interno, externo, que não recordaria normalmente e nem reproduziria com exatidão. E fui aperfeiçando também! Cortei infinitas vezes o cabelo, aparei a barba, fiz meus músculos crescer, a gordura diminuir, treinei a voz pro teatro, aprendi a escrever, e só escrevo com a ajuda de uma caneta, um teclado, ou um pedaço de carvão.

Será que este computador também sou eu?!

terça-feira, 14 de julho de 2009

Gosto dos fins de tarde no escritório. Geralmente tomo um café e escuto meu player como radinho de ombro quando esqueço o fone em casa, o que não foi diferente hoje. Culpa da falta de sono. Depois das quatorze horas de sono de Sábado pra Domingo, era de se esperar que não dormiria o suficiente pra começar a semana com uma cara melhor. Dormi sete e meia da manhã e acordei nove e meia da Segunda. Duas horas e duvido que meus olhos tenham dado aquela tremidinha básica de quem entra em sono profundo. Ou seja, raciocínio mais do que prejudicado. Mas isto talvez me vicie também, esta leseira gostosa, que me levou a ficar observando um restinho de sol através da janela do banheiro do escritório, encostado na parede ao lado do mictório, um cafézinho na mão e na outra o player, tocando Ella Fitzgerald & Louis Armstrong. Realmente não se precisa de muito pra ser feliz ao longo do dia.
Durante o almoço até tirei um cochilo. Alguém abriu a porta de nossa “sala despressurizadora” e quase me arrancou o pé. Não sou alto, tenho um metro e setenta e quatro, mas meus pés sempre ficam pra fora do sofá e levam várias porradas durante o cochilo. Talvez seja de propósito, é possível que estivesse roncando. Fiz uma cabaninha de almofadas de estampa indiana na minha cabeça e esqueci do mundo, nem pensei em levantar pra xingar. Mas também não iriam levar a sério, o povo daqui adora minhas micagens e provavelmente ririam do meu ataque.

Devo ter entrado no período de hibernação apesar de não ser urso, em nenhum dos sentidos. Dormi muito de Sexta pra Sábado também. Na Sexta, e no Sábado, tentei continuar pela nona vez o filme francês chamado “A Questão Humana”. Sempre durmo na mesma parte, e não que o filme seja chato. Um pouco pretensioso talvez, mas eu gosto. Pra mim, já virou um seriado e vou assistir em uns quinze capítulos. Sempre durmo na parte em que toda a tchurma da empresa vai pra uma rave, o chefe e seus subordinados, e eles “dançam” a noite inteira de maneira dionisíaca, até acordarem sujos e jogados, deitados no chão quase sem roupas e com uma ressaca danada. A cena é estranha, porque contrasta com todo o filme que até então se passa dentro de uma empresa em um clima extremamente formal, e porque “dançar”, desculpas ao meu grande amigo Charles, não é a praia dos franceses, pelo menos da maior parte deles, com exceção dele mesmo que requebra horrores comigo todo fim de semanam e tem um ziriguidum danado.

Sábado choveu da hora que acordei até a noite. Colocava a cabeça pra fora da janela e naquela garoa fina e fria, academia nem pensar. Como o filminho francês estava de rosca, assisti “Brown Bunny”, que é pesado mas tem uma das cenas mais bonitas que já vi, totalmente sem fala. Quando o tempo deu uma brecha me agasalhei com mil blusas e fui até o Al...ai...o Al....aiaiai...o Al....e passei algumas horas lá. Á noite, combinei de comer pizza na casa de uns amigos e, depois de vestido, arranquei tudo na porta de saída e dei meia volta. Não tinha ânimo o suficiente. Desisti da The Week e comi três sanduíches de mortadela, pipoca, e refrigerante. Trash, mas uma delícia. Assisti Os Normais e dormi no sofá.

Continuo o post já na Terça, ontém fui interrompido tantas vezes por uma mala sem alça que não consegui continuar.

A semana começa mais triste e vazia. A morte da Pina Bausch me deixou transtornado. Quando li a notícia um silêncio se fez, o mundo deve ter ficado mais silencioso mesmo, menos interessante. Culpa dela mesma, que nos encantou tanto tempo com seus movimentos tão intensos e agora vai embora assim.

A vida é uma sacanagem.



terça-feira, 7 de julho de 2009

Hoje acordei muito bem. Dormi ontém no sofá por volta da meia noite, acordei ás quatro da manhã, baixei músicas na web até as seis e acordei meio dia. Nada mal. Às vezes quase acredito que sou livre. Entrei no trabalho ás treze horas e quinze minutos, nem um minuto a menos, na verdade alguns a mais, nunca chego no horário. Até que sou bom no que faço, não que isto requeira muita inteligência. Paciência sim, muita. Por falta de coragem pra atos mais heróicos considero estes minutinhos meus atos de rebeldia, meus gritos de resistência, nem que sejam só um barulhinho, um peidinho, desculpe a comparação tão chula.


Nada como uma noite que deu certo e na companhia do Al...ai...o Al....aiaiai...o Al... Nem pra academia eu fui, e olha que pra isto me disciplino. Voltei pra casa mais ou menos vinte pra meia noite e dormi bem, até o meu súbito despertar das quatro da manhã.

Estava frio quando fui pro escritório, o céu aberto, azulzinho azulzinho. Fui ouvindo "Finally made me happy" da Macy Gray que de tão boa não sai da minha cabeça mais e foi a trilha de hoje. Tudo perfeito e sem pombas. Confesso que estava com um pouco de medo. Quando tudo está perfeito demais soa um pouco bizarro. Andei todo o trajeto tomando todo o cuidado pra que tudo ficasse como estava e não esbarrasse em nadinha. Sorri pra todo mundo e olhei pra não pisar na merda. Lindo, elevador me esperando, cheguei direto ao décimo terceiro andar e louco pra conversar. Nada da carioca, minha amiga e colega de trabalho com quem tenho altas conversas de cunho filosófico-existencialista, financeiro, e sobre a existência de Deus. Já tinha escutado toda novidade da viagem á Boston da qual ela havia chegado no dia anterior, agora era minha vez de falar e dela escutar, o que exige um esforço considerável da sua parte. A fofa, como seu marido a chama, entrou em quarentena. Não sei qual a conta, mas o médico disse ser de noventa e oito porcento(!) a chance de ser a tal da gripe que o nome não se pronuncia. Sabia que tinha alguma merda.

Como tenho uma certa tendência a psicossomatizar, fiquei o dia inteiro com o corpo mole. Já me imaginei trancado no apartamento52, um agente federal vestido de astronauta lacrando minha porta e alertando a população sobre os perigos da minha existência. Entrando em casa, meus pais jogados no sofá assistiam ao show-velório do Michael Jackson e esperavam pra uma visitinha surpresa. Corri pro quarto, tinha que protegê-los. Peguei uma super cueca azul e botei na cara. Não consigo pensar em nada mais que tenha elástico e tamanho suficiente pra cobrir uma boca e nariz assim tão rápido. Óbvio que não era nenhuma sunga fio-dental, portanto servia. Expliquei tudo bem de longe, eles riram. Ninguém me leva a sério mesmo.