sexta-feira, 23 de abril de 2010

O método


Certa vez escutara sobre o método. Não que houvesse necessariamente um trauma. Entendia um pouco da psicologia humana, mas não achava possível entender completamente o mecanismo do funcionamento da mente, talvez a de um macaco ou a de uma anta fossem mais fáceis por serem mais simples. Na verdade a questão permanecia obscura, não conseguia ainda definir para si mesmo o que era, enfim, traição. Em períodos mais libertinos de sua existência já havia feito o papel da puta, Havia beijado vários e várias em uma só noite, só por diversão, e não que isto o levasse às vias de fato que levam á procriação, mas estava longe de ter sido um celibatário. Claro que toda a combustão era nutrida por combustíveis já utilizados há séculos, na maioria das vezes, conhecidos como desinibidores ou embelezadores, como o álcool, por exemplo. Achava até ser bem moderno, entendia o namoro á três, a libertinagem, o desapego, tudo isto enquanto teoria, o que parecia bastante interessante no caso de enjoar do arroz e feijão. Mas apesar de histórico e da teoria, só sabia de uma coisa: a cena não lhe havia feito bem. Não conseguia digerir aquilo. O método, afinal, consistia no exercício de se congelar mentalmente a cena causadora do trauma, encarar o bicho de frente, e desfrutar de uma vida sem traumas e neste caso, sem ciúmes.

Deitara no divã já há alguns minutos. Durante todo o caminho pensara em como começar a sessão, o que dizer áquela mulher, fato este que ao longo dos meses havia se tornado uma questão torturadora. Cada vez que se sentava em frente á ela ficavam se olhando por longos minutos, que pareciam horas. Nada vinha á sua mente, e a pressão que o olhar curioso da mesma exercia sobre ele o deixava congelado, o que causava ainda mais ansiedade, e nos dias em que realmente achava estar bem, acabava tendo que inventar algum perrengue fictício só pra ter papo, o que acabava se tornando real dada a dramaticidade da interpretação e da fé cênica trazida dos tempos de ator amador, cuja frustração pela falta de talento também já havia sido abordada na terapia.

Ela, a psicóloga, que não era velha mas já entrara na meia idade, usava roupas largas com motivos indígenas e estava um pouco acima do peso. Usava aqueles colares de pedras e madeira, um certo ar de intelectual tupiniquim, com óculos na ponta do nariz e um olhar de matrona. Pediu então que fechasse os olhos e se concentrasse. Trouxesse, lá do fundo da mente, a cena, a situação passada que tanto lhe aborrecia e teimava em não ir embora. De acordo com o método, a cena deveria ser revivida em preto e branco e, na hora do trauma em si, no ápice do acontecimento, pausada e observada por alguns momentos como se fosse um filme em slow motion, até que seu coração, disparado pelo trauma, suas mãos suadas e a tremedeira fossem passando naturalmente e a ansiedade diminuísse. Começou então á lembrar da noite fatídica. Na verdade, neste ponto já queria rebobinar o filme, dar stop de uma vez, e que se lascasse a pausa. Mas, como tudo que não se quer ver exerce uma atração incomensurável sobre nós, um magnetismo que vai contra a gravidade do fato em si, não conseguiu tirar os olhos da cena. Pronto, o momento da pausa! Quando os lábios se tocam! A cena até seria bonita, se ele mesmo fosse o codjuvante do tão querido protagonista. Quase romântica, caso fosse fato isolado e se abstraísse o ambiente todo em volta e as caras tortas. Observou aquilo, prestou atenção nas expressões. Era como se tudo houvesse calado e não conseguisse mais falar pela boca, fosse dar um grito pela barriga, aquela coisa parada perto do estômago e que se saísse causaria um estrago, incontrolável, demasiado humana. Suas pernas ficaram sem força. Este, pensou, deveria ser o momento em que os sinais de ansiedade deveriam começar, e em seguida melhorar, o que não sucedeu. Algo estava errado. Como num estalo, abriu os olhos. Olhou em volta e enxergou tudo mais claro dentro da sala. A terapeuta e sua habitual cara de "isto é realmente muito interessante" dos terapeutas, olhava curiosa. Sentiu uma euforia, uma aceleração. Fora de compasso, sentia como se alguém houvesse sentado no controle remoto em cima do sofá e apertado o botão de avançar com a bunda, mas que acelerava somente seu próprio personagem e mais nada em volta. Sentiu um odor forte que antes passara despercebido. Sentia agora um outro frio na barriga. Num gesto incontrolável se levantou, e de pernas moles foi até a psicóloga, segurou seu rosto com as duas mãos e lascou-lhe um beijo de língua. Um beijo nervoso. A coitada nem teve como reagir. Segurou com as duas mão os braços da poltrona onde estava sentada, apertou o couro com suas unhas e ficou com a cara vermelha, como quem tem muito ódio ou se asfixia, ou lhe fosse sugada toda a energia pela boca. O corpo pulava tentando se desvencilhar, os olhos abertos, esbugalhados.
Soltou a pobre coitada, bateu com a mão na maçaneta e saiu correndo. Desceu as escadas do prédio onde se encontrava o consultório e parecia ter o demônio no corpo. Era uma euforia irreconhecível, quase um desespero prazeroso. Uma sensação dionisíaca. Saiu correndo pelas ruas do centro antigo, a cabeça inclinada pra frente e os passos agora já firmes. Era horário de almoço e a rua estava cheia.
Quando o engraxate levantou a cabeça, achou que algo de ruim estivesse acontecendo, um assalto talvez. Manteve as mãos no sapato e com olhos assustados olhou direto ao que então achava ser a ameaça, que por sua vez não pensou duas vezes, aliás, nem pensou, dado o momento irracional: abaixou-se e lascou um beijo no engraxate, que não sabia se segurava o pé do cliente, o boné, ou se aproveitava o beijo. Largou o pé do cliente, que saiu correndo e xingando, e tentou empurrar o maluco que o havia agarrado. O beijo fora mais demorado que o da psicóloga, talvez pelo fato do predador ser homossexual, característica esta que até agora não se sabe sobre a presa. Quando o franzino engraxate já não lutava mais, deixando a dúvida inclusive se gostava ou não do ataque, soltou o rosto do jovem todo babado e saiu correndo novamente.
Correu enfim como um louco, um desvairado em busca de um beijo, uma necessidade brutal da troca de fluídos, independente de quem fosse, bonito ou feio, homem ou mulher, humano ou animal. Até um cachorro chegou a beijar, um rotweiller com cara de mau que arrastava seu dono pela coleira só pra lamber a cara e a língua do descontrolado e rosnou somente quando o seu dono finalmente foi beijado. Beijou todo mundo nos pontos de ônibus, os taxistas, os malabaristas de semáforo e os amarelinhos do trânsito. Era só um semáforo fechar e já jogava metade do corpo pra dentro dos carros e tascava selinhos e beijos de língua nos mais distraídos. Aparentemente beijava bem. Alguns até aproveitavam por um tempo mais longo que o normal, geralmente jovens senhoras que conseguiam inverter a situação e fazê-lo correr.
A ânsia era tanta que quando não encontrava alguém passava a beijar o próprio braço, as mãos, e saía correndo com a língua entre os dedos. Naquele dia não parou pra comer, incansável. Entre uma bitoquinha e outra lembrou-se do escritório, pois lá deveria estar, e só se lembrou porque minutos antes beijara uma senhora que desconfiava ser a esposa do chefe.

É verdade que em vários momentos correu pra fugir. Correu de senhoras conservadoras, que quando conseguiam se desvencilhar da rota do predador gritavam sobre os riscos das doenças carregadas pela saliva, como o sapinho, por exemplo, e pela falta de vergonha de se beijar com a língua na frente das crianças. Correu de policiais homofóbicos e de neonazistas, que primeiro beijavam e depois batiam.
Chegou enfim em frente ao prédio onde trabalhava. Olhou para o alto e respirou. Pensou, por um mísero instante de clareza de raciocínio, que não seria muito inteligente beijar seu chefe. Respirou, apertou as mãos na tentativa de auto controle, entrou no hall de entrada e deu um selinho de meia boca no zelador, que fazia vez de porteiro, e não entendendo nada continuou separando as correspondências, como já fazia há quarenta anos, entregues pelo já conhecido carteiro que também já fora beijado horas antes, e por sinal havia gostado. Entrou correndo no elevador, vazio por muita sorte, apertou o número do andar desejado e logo veio o ímpeto que o levou direto ao espelho de fundo. Beijou-se ardentemente, de olhos abertos, uma vez que somente pelo toque perceberia que aquilo não passava de um vidro. Quando a porta se abriu, segurou com o pé. Encarou sua imagem no espelho babado e não se reconheceu.

Respirou fundo. Neste dia não cumprimentou a recepcionista, como sempre fazia. Passou olhando para o lado oposto, e assim que avistou a mesinha com o café não teve dúvidas, saiu com o copo de plástico tapando a boca enquanto sua língua enlouquecida lutava pra sair e consequentemente limpava todo o copo por dentro. Sua mesa, bem ao fundo, o esperava como todo o dia fazia, um bicho de vários braços e cabeças de papel pronta para engoli-lo ao som da trilha sonora bizarra da voz do seu chefe pressionando sem dó. E foi neste exato momento que a trilha começou: como que sentindo sua presença de longe, um cachorro atrás da cadela no cio, seu chefe gritou lá dos confins da sala de reuniões chamando seu nome. O frio na espinha veio em seguida. Como falar com seu chefe quando sua língua não queria falar? Além da vergonha, certamente seria processado por assédio á um homem de sessenta e vários anos. E, também como fazia diariamente, seguiu o chamado como um cão adestrado e pra lá foi. Da porta da sala de reunião avistou a enorme barriga do seu chefe espremida contra a mesa lotada de gente. Sua língua agora estrebuchava dentro do copo. Teve vontade de chorar, de vomitar, quando percebeu o que estava em iminência de acontecer. Que pelo menos o beijasse na boca e não na barriga. Quando adentrou todos olharam. “Fsdnjndadashdu%$@*#¨¨!”, falou. “Mas o senhor pode me explicar o que...”, dizia seu chefe quando subitamente sentiu a língua estranha dentro da boca. Foi uma gargalhada geral. Apesar do ar carrancudo do chefe, a cena era muito absurda pra passar despercebida e para azar do funcionário que provavelmente teria suas horas contadas dentro da empresa. Olhou seu chefe com olhos esbugalhados. Tentava afastar seu corpo mas a boca não desgrudava. O velho até tentou mordê-lo, mas a língua estava tão rígida que era impossível. Pareciam dois cachorros grudados. Quando conseguiu tirar a língua de dentro de seu superior, já sem fôlego, não sabia se corria pra esquerda ou direita, e percebendo que não adiantariam maiores explicações, fugiu do escritório sob os aplausos dos colegas de trabalho que achavam ser aquele algum ato de rebeldia contra a empresa.

Desceu quinze andares de escada afim de evitar maiores contatos. Já estava zonzo. Tudo que queria era sua casa. Apesar da agitação que insistia em aumentar, abaixou a cabeça e seguiu pelo meio da multidão. Guiava-se pelo chão, pelas calçadas que já conhecia, pelas esquinas já conhecidas. De cabeça baixa entrou no prédio, cumprimentou o porteiro e ousou levantar a cabeça novamente pra olhar. Aproveitou o elevador que já estava no térreo. Olhou-se no espelho novamente, agora já conseguia. Colocou a chave na porta e girou. Foi recebido pelo sorriso que considerava o mais lindo, olhou aqueles olhos brilhantes e enxergou. Aproximou delicadamente seus lábios dos dele e os tocou. Pela primeira vez durante todo o dia deu um beijo.

domingo, 22 de novembro de 2009

Hoje lembrei da Paquita. Paquita era nossa cadelinha, uma pinscher de raça pura e pêlos caramelo, doce e obediente como uma pequena princesa canina. Paquita era um exemplo de cadela, com fome, ficava de pé e pulava como uma bailarina nas pontinhas das patas traseiras tentando chamar atenção, uma graça. Porque a batizamos com este nome na verdade não sei, que me lembre todas as paquitas, as da Xuxa, eram loiras, não sei se de nascença, e não havia uma sequer que tivesse cabelos castanhos ou caramelo. Aliás, nunca entendi porque chamavam paquitas e não xuxetes.
Certo dia, um alvoroço no quintal. Paquita tremia toda, como todos os pinschers o fazem, e olhava para o alto com olhos aterrorizados. Sim, quem tem cachorro sabe enxergar tudo pelos olhos do bicho. Sabemos quando estão rindo, chorando ou fazendo um cú doce. A situação parecia grave, o Rex, um outro cachorro sem raça definida que tínhamos, grande e preto, e o Lulu, assim chamado por pura falta de criatividade e que era da raça Lulu da Pomerania, também olhavam para o alto mas com um certo ar de desdém. Eram machos, Paquita era fêmea, e delicada, quase uma bailarina. Quando saio, do alto de um poste de madeira que meu avô plantara no meio do quintal e servia de suporte pras várias gaiolas de canários e sabiás que ele tinha, me olhava um urubú. O bicho era feio. Com as asas abertas e pescoço caído, olhava ameaçadoramente pra baixo ameaçando a pobrezinha, que tremia. Não que Paquita não fosse corajosa, já havia, apesar de sua delicadeza, demonstrado muita bravura, e até um pouco de bizarrice. Certa vez protegia tanto a entrada de sua casinha que decidi investigar porque tamanha movimentação. Os olhos da bichinha estavam esbugalhados, parecia que tinha cheirado, e um certo ar de culpa pairava em seu semblante. Quando cheguei perto da casa, Paquita saiu correndo e deixou o caminho livre. Peguei a casa com as duas mãos, olhei para dentro, e chacoalhei: uma cabeça de pomba saiu rolando e quase bateu na minha testa; o corpo, só Deus sabe onde foi parar. Paquita tornara-se uma assassina. Pois bem, voltando ao urubú, dada a gravidade da situação, quis proteger os meus bichos. Coloquei a Paquita dentro de casa, o Rex e o Lulu dentro do quartinho de ferramentas de meu avô, peguei a mangueira e mirei direto no bicho. A coisa preta voava de lá pra cá, caia em cima do telhado, pulava no quintal, e todo mundo gritava. Vinha correndo para o meu lado, escorregava no piso molhado e caía no chão, depois voava de volta lá pra cima do poste. O bicho me dava calafrios. Só me lembro que o bicho demorou dois dias pra ir embora, ficava a maior parte do tempo em cima do telhado e não mais no poste, sabia que já estava manjado. Tinha cara de malandro e talvez estivesse fazendo aquilo somente pra apurrinhar, uma vez que Paquita várias vezes, talvez por distração, ou por coragem assassina mesmo, saiu para o quintal e não foi devorada. Paquita, tadinha, morreu com uma pancada na cabeça, não muito tempo depois. O veterinário falou que alguém, ou ela mesma durante um ataque de fúria, teria golpeado a pobrezinha, que teve uma espécie de derrame e sangramento intra-craniano. Chorei meses seguidos, as primeiras semanas me trancafiei no quarto e chorava o dia inteiro. Mas Paquita havia deixado uma descendente, a Preta, também chamada assim por pura falta de criatividade pois a mesma era pretinha pretinha, o que na verdade era estranho, sendo filha de Paquita, cor de caramelo, e de Lulú, que era champagne ou quase branco. Rex já havia morrido de velhice, já estava lá antes mesmo de eu nascer, e Lulú morreu vários anos depois, tão velhinho que já estava até cego e com "dentes gavetinha", de quando o maxilar inferior fica protuberante e os dentinhos de baixo ficam pra fora. Perdeu toda beleza de outrora. A Preta viveu com minha mãe muito tempo e morreu dezessete (!) anos depois já no apartamento para o qual minha família havia mudado, lá no Butantã. Eu já não morava mais lá, já morava aqui no apartamento52, e achei estranho ter chorado apenas dias depois de sua morte ocorrida ao amanhecer de um dia ensolarado e tomando um solzinho que entrava pela janela como era de seu costume. Estas foram minhas primeiras experiencias com a morte.

Na verdade lembrei de Paquita por causa de um urubu. Não aquele de anos atrás, mas de um outro que conheci ontém mesmo. Atravessando uma das ruas de Higienópolis, que, apesar de não ser o meu bairro, por motivos de força maior eu adotei como meu, por pura preferência mesmo, cheguei do outro lado da rua e, ao pular pra cima da guia quase surtei, apesar de estar muuuuuuuito bem acompanhado: um urubu andava de lado, meio capenga, e olhando com ar de desconfiado vinha bem na nossa direção. A primeira coisa que me veio á cabeça era se aquilo era sinal de mau agouro, só não fiz o sinal da cruz porque não sou religioso, e estando muuuuuuito bem acompanhado daquele jeito seria até tolice achar que algo pudesse ficar ruim, porque coisa ruim é não estar muuuuuuito bem acompanhado como eu estava. Desviamos, passamos bem próximo ao bicho que permanceceu imóvel, e continuamos a subir a rua, olhando de rabo de olho pra ver se ficava pra trás, até que uma anta, no sentido figurado, empurrando um carrinho de carregador de supermercado vira a esquina de baixo e, ao ver o bicho indefeso, acelerou feito Ayrton Senna e veio empurrando o bicho até a outra esquina, onde nós estávamos, e o bicho, tadinho, desesperado, corria todo capenga. Continuaram a perseguição até o bicho sumir rua afora. E hoje, novamente muuuuuito bem acompanhado, não é que encontro o pobre coitado a vagar novamente pela calçada?! Uma madame, toda botocada, abre o vidro do carro blindado: "Pelo amoooooorrrrr de Deeeeeus, o coitadinho está toooooooodo machucado, pobrezinhoooooo!", e de repente todos em volta se solidarizaram com o bicho, que sumiu novamente, capenga.

De resto, hoje voltei pra minha casa, roupa de dois dias atrás grudada no corpo apesar dos vários banhos tomados. Motivos de força maior ás vezes nos obrigam á isto. Muuuuuito bons motivos nos obrigam á isto.

E fica aqui registrada uma de minhas várias memórias de infância.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Quase atropelado, olhei sem acreditar ainda do meio da rua. Teve a audácia de me deixar plantado no meio do caos e entrar no primeiro táxi que passava. Parei o próximo, ainda do meio da rua e entrei, nem olhei se estava vazio. O cara falava árabe comigo, não posso deixar a barba um pouco mais comprida que do usual “italiano”, “frances” e “portugues” logo viro árabe. Eu suava frio, só que de nervoso, ainda era inverno e a temperatura estava em torno dos oito graus positivos apesar de estar no Cairo. De súbito, o táxi pára. Entra um homem alto e bem moreno no banco da frente, feio, devo mencionar, cumprimenta o motorista, bate a porta e logo já começa a me pedir dinheiro, primeiramente num francês, e em seguida em um inglês mais do que toscos. Comecei a berrar com os dois, fiquei macho, disse que queria descer do táxi imediatamente, apesar do frio na barriga e do choro preso de nervoso. Tinha a certeza que deveríamos virar á direita, mas é claro que fomos pra esquerda. Continuei no táxi ainda por uns dez minutos, não acreditava que além de levar um pé na bunda ainda haviam me sequestrado, e além de tudo eram feios. Quando finalmente caiu a ficha e percebi que não iriam parar, fingi que iria abrir a porta e pular. Ele parou o carro, esperou que eu saísse e foi embora. Já fechei os olhos esperando o tiro. Meu coração saía da boca, respirei, olhei em volta, deserto. Deserto de gente, e deserto de deserto mesmo, areia. Vi um portão alguns metros á frente e segui pra lá. E não é que ele havia me deixado lá mesmo, de frente á esfinge que me observava toda lânguida e sem nariz?!

Outra memória de viagem.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009


Com a bochecha direita encostada no balcão do bar, sentia meu corpo inteiro formigando. Horas antes, andando pela cidade com um grupo de espanhóis, entrei no Banco do Brasil pra acompanhar uma conhecida brasileira a tirar dinheiro. Lá dentro, uma figura vestida com saia e blusa indianas, coloridas, cabelo todo encaracolado e avermelhado conversava, alucinadamente, com a caixa do banco vazio, reclamava que sentia saudades do Brasil e dos brasileiros, que não aguentava mais e precisava falar português de qualquer maneira. Olhou pro meu lado, e como tenho imã pra gente doida lá veio ela com seu sotaque nortista, acolhedor, desanuviando os ouvidos da pobre caixa-terapeuta-brasileira-que-mora-em-Amsterda. Deu graças á Deus de ver um brasileiro. Comecei a conversar, ela era interessante e tinha presença de espírito, era bem engraçada. Saímos juntos do banco, nos juntamos ao grupo de espanhóis novamente e fomos andar. Não muito tempo depois, já éramos unha e carne! Por idéia dela, demos um perdido no grupo e sentamos em um bar todo decorado com motivos psicodélicos, todos lá sentados em círculo, no chão, olhando uns para os outros, chapados. Avisei que nunca tinha fumado a mardita. Peguei o cardápio e escolhi a jamaicana, tinha jeito de ser boa e me lembrava praia. Começamos á conversar sobre o Brasil, sobre as praias maravilhosas em contraste daquele dia frio, do seu marido paraguaio que era artista plástico, dos seus dois filhos e seus nomes excêntricos, e eu ria, ria, e dizia estar frustrado porque nada estava acontecendo e que aquele treco não dava barato, uma enganação. Saíndo de lá, andava pelas ruas e até o asfalto eu achava bonito.
Na porta do hostel lá estava ele, um quase príncipe encantado filho de mãe austríaca e pai italiano, todo bem vestido, tudo sob medida, cabelos castanhos claros e pele da cor de jambo, que aliás eu sempre uso como exemplo e nunca ninguém entende que pele é. Pois bem, resolvi puxar um papo, afinal ele já havia me abordado uns dias antes. Me convidou pra jantar ali perto, então lá fui eu, tomei um banho, puxei umas roupinhas "mais ou menos" da mala e dez minutos depois estávamos á caminho do restaurante. Conversamos sobre tudo: família, artes, cinema. Menos de sexo. Incrível ele, mas não se dizia gay. Voltamos pro lobby do hostel, encontrei uns alemães animadíssimos que já há alguns dias faziam uma bagunça divertida no local. Claro que naquela época eu achava engraçado, com vinte anos tudo é engraçaado, e resolvi me juntar á tchurma. Não me lembro muito, só sei que dei umas tragadas numa tora de uns trinta centímetros que ía passando de mão em mão e soltava uma fumaça que empestiou todo o saguão. Ria, ria, ria. O rapaz todo perfeito só observava. Levantei, chamei ele pra fora, falei que estava tonto e comecei a chorar, falei que achava que iria morrer, mas que este não era o problema, pois o pior era como iriam levar meu corpo para o Brasil. Ele me levou pra dentro, me sentou ao lado do balcão do bar e continuou observando. Minha bochecha formigava só de encostar no balcão, estava zonzo mas não parava de pensar como seria o transporte do esquife. Pedi pra deitar no sofá. Ele colocou minha cabeça na sua perna e me fez dormir. Meu vôo de volta ao Brasil seria em algumas horas. Lembro de adormecer olhando pra aquela carinha perfeita alisando minha cabeça. Acordei de madrugada, já na minha cama, e com tempo suficiente para ir ao aeroporto. Vim sentado no banco do meio de três, classe econômica de lá até aqui, um árabe de cada lado e um monte de tranqueiras que trouxe embaixo do banco da frente sem nem poder esticar os pés. Da bicho grilo não escutei mais, havia anotado seu contato mas nunca liguei. Do meu companheiro de farra nem contato eu peguei, mas sempre me vem esta história vez ou outra á cabeça. Sempre me pergunto se estas pessoas algum dia lembram de mim assim como lembro delas. Será?

Primeiro dia de pequenas memórias de viagens...

Aqui no apartamento52, tentativa de concentração enquanto uma travas que escutavam Sarah Brightman com as portas do carro abertas (ninguém merece) agora resolveram tocar Carmina Burana no último volume. Oh, Deus...

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Voltando pelas ruas de Higienópolis, olho pra cidade que de madrugada me parece outra. Olho, com olhos de turista, e olho pro alto. Há algo de diferente no ar, sinto uma inesperada golfada de ares novos e refrescantes. Hoje mudei minha cama de lugar, cabeça pra janela e pés pra porta do quarto, e assim algo se faz novo e o feng shui que me perdoe. Talvez seja a cera da faxina de hoje dando barato...

Um fato. Considero um talento não ser ignorante e mesmo assim ser feliz. Como se diz ás vezes a ignorância é uma benção. Cada vez mais, uma seleção talvez natural me aproxima destas raridades de pessoas que por algum motivo tornam meus dias melhores. E não é que com meus trinta e três anos me pego ás três e meia da madrugada de uma Quarta pra Quinta em sonhos mirabolantes de mudança? Justo eu, que apesar de boa pessoa sou um pouco garoto enxaqueca?

Hoje andei pensando. Quero um cachorro, quero morar no Canadá, quero que seja fácil. Quero gente bonita, quero gente interessante, quero gente inteligente. Quero mais tempo. Eu quero.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

"Eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim" e daí por diante, com a Gabriela, comigo, e com todo mundo. Ainda bem. Hoje mais do que nunca penso que não quero mudar ninguém, não quero ser um fator limitador. Se gosto, gosto. Do jeito que é.
Eu não posso dar o que eu não tenho, e algumas coisas que tenho, não quero dar, e daí a piadinha na cabeça do sem vergonha que está lendo...
Eu durmo tarde, querem que eu durma cedo;eu acordo tarde, seria melhor mais cedo. Se eu fico é porque sou grudento, se sumo é porque sou birrento. What the fuck?!

Eu nasci ás nove e meia da manhã de um Domingo, praticamente um after. Não tem jeito, I´m not a "morning person" e acordo com cara de emburrado mesmo. Mas pra que focar na minha cara de joelho, sendo que o resto do dia estou acordado e inteiro? Trabalho rápido, como rápido, ando rápido, malho rápido, tudo rápido, e mesmo assim não é o suficiente, eu "não priorizo" as coisas certas...

Parece que meu sexo "está insosso", que tenho que mudar. Do mesmo, não se quer mais, tenho que fazer mais. Nenhum problema com a genitália, longe de mim, mas a vida é assim e comer arroz com feijão todo dia pra alguns enjoa. Não pra mim, mas sendo assim, tenho que fazer do arroz um strogonoff e do feijão, bom...do feijão não se tem muito o que fazer. Mas chega uma hora que strogonoff também cansa.

A vida é assim, enfim, e se nasci torto provavelmente esse será meu fim.

domingo, 4 de outubro de 2009

Há algum tempo não escrevo. Não por falta de assunto, pois por mais que sejam os mesmos sempre os tenho. Tempo, a falta de tempo. Não que não o tenha, pois são várias as vezes que aqui me sento e fico á olhar para a tela, inerte. Ás vezes, tenho a impressão que ou escrevo, ou vivo. Se vivo, não tenho tempo de escrever, tantas as informações, experiências, que transbordam de mim e quero contar, e se somente escrevo não vivo. Escrever me faz vivo, mas ás vezes só viver é mais fácil. Ou empurrar com a barriga, ir com o fluxo, pra ser mais claro, e não que a vida seja um mar de rosas.

De nostalgia também se vive, eis minha surpresa. Hoje fui à uma reunião da família, com primos que não via desde os treze anos, tias-avós adolescentes de oitenta anos, noras que parecem sogras (!), e muito churrasco, massas, saladas e doces dos quais nem percebi que já sentia falta. Rostos que se mantém iguais, corpos duas vezes maiores, e alguns nem tanto. Todo mundo com filhos, e alguns filhos também já tem filhos! O que este povo andou fazendo enquanto eu estava fora?

No carro já me prepararam: "Se prepare que o tio Vadão vai chorar...", e assim se sucedeu. De início não me reconheceu, mas chorou do mesmo jeito, assim como fez com cada um dos outros familiares que chegaram antes de mim e em todos os anos que já se passaram. Fui o último a chegar á escola, pertencente á um dos parentes e local do encontro. Fui cumprimentando um a um. Gente que havia esquecido e num instante se tornou tão familiar e presente de novo. Que vida maluca, não me lembrava que tinha primos tão engraçados!

Na porta, uma foto de minha bisavó e uma criança no colo que uns diziam ser minha mãe, outros sua irmã mais velha que daqui se foi quando tinha quatro anos, morreu no colo de minha avó, foto ampliada em preto e branco e de meados do século passado. Sim, a história da geração lá presente já virou de um século pro outro, é engraçado pensar sobre isto. Na foto, minha bisavó, Antonieta e a criança, ambas sentadas no quintal de um terreno enorme que tinham no Butantã, bairro onde eu nasci e fui criado, cada uma com uma mecha de cabelos brancos enorme na parte da frente da cabeça, mecha esta que também tenho, em tamanho menor e que virou a marca registrada da família. Diz a lenda que, durante a gestação de uma de suas filhas, no caso minha avó, a senhora Antonieta acidentalmente deixou cair um litro de leite fervendo, e de mãos molhadas, após o susto e talvez com dor, as colocou na cabeça, indignada com o que havia acontecido, e depois as apoiou nas pernas, mesmos locais onde apareceriam manchas brancas nela e em seus descendentes desde então, isto á partir de minha avó, sendo que as das pernas eu não tenho. Só a mecha branca de cabelos já me causou problemas o suficiente, já fui chamado de Odete Roitman, Cruela e de guaxinim, um trauma. Hoje pego um cotonete e passo uma gota de tinta e água oxigenada, e já é suficiente pra apagar a causa do trauma. Mas bem que achei bem bonitas as que hoje vi na cabeça de outras pessoas.

Uma tia, que aliás tem uma nora que é sua cara e cujo fenômeno constatei ocorrer mais de uma vez na família, notou terem faltado algumas pessoas ao encontro. Meu primo, filho dela e que tem a noiva com a cara da mãe, respondeu que só se as mesmas levantassem da cova, o que causou o silêncio de uns e a gargalhada de outros. Daí, durante toda a tarde se passou o que óbviamente se espera das reuniões de família: os tios bêbados, as piadas sem graça mas que no final todos riem sinceramente, privacidades expostas, o dono da churrasqueira trazendo petiscos vez ou outra, as histórias de viagens e os doces sendo divididos entre todos na hora de ir embora. Telefones e emails trocados, e a promessa de se fazer tudo isto com mais frequência, o que já se sabe que não acontece mas que deixa uma sensação gostosa de continuidade.

É interessante a perspectiva de que se faz parte de um grupo de mesmo sangue. Ali se tem uma posição muito bem definida. É uma ordem já estabelecida, papéis estabelecidos, é o que é. Eu sou o primo de alguém, que é filho de alguém, que é irmão de alguém, que por ventura é minha mãe, ou meu pai. Isto parece que dá uma certa segurança, uma sensação de que as coisas estão caminhando sim, de que existe um caminho sim, e que a gente faz parte dele sim. Que vieram uns lá atrás e já se foram, que virão outros mais á frente, and so on.

Definitivamente preciso fazer mais do que muitas vezes considero programa de índio.